Participar de uma licitação pública exige muito mais do que encontrar um edital, cadastrar uma proposta e acompanhar uma sessão de disputa.

Antes de chegar a essa etapa, existe um trabalho contínuo de organização, análise e preparação para que a empresa esteja em condições de aproveitar uma oportunidade quando ela surgir.

Nesse processo, diferentes profissionais contribuem para manter informações, documentos e decisões alinhados à realidade do negócio. Entre eles está o contador, cuja atuação vai muito além do registro de números.

Por isso, o Dia do Contador, celebrado em 22 de setembro, também é uma oportunidade para reconhecer quem atua nos bastidores de muitas empresas fornecedoras do poder público.

Balanços, demonstrações contábeis, análises econômico-financeiras e informações sobre a realidade patrimonial da organização fazem parte de um conjunto de elementos que podem ser relevantes para quem disputa contratos públicos.

O contador não ocupa necessariamente a linha de frente da licitação, mas seu trabalho pode ajudar o fornecedor a chegar mais organizado e preparado para ela.

22 de setembro: uma data para reconhecer quem está nos bastidores das empresas

O Dia do Contador é celebrado em 22 de setembro em referência à criação do curso superior de Ciências Contábeis e Atuariais no Brasil pelo Decreto-Lei nº 7.988, de 22 de setembro de 1945.

Desde então, a profissão acompanhou profundas mudanças na forma como as organizações registram, analisam e utilizam suas informações.

O Conselho Regional de Contabilidade do Estado de São Paulo destaca justamente essa evolução e a presença do contador em áreas como finanças, gestão, auditoria, perícia e planejamento estratégico.

Esse alcance ajuda a explicar por que a contabilidade permanece tão próxima das decisões empresariais.

O Conselho Federal de Contabilidade ressalta a contribuição desses profissionais para a sustentabilidade das empresas e para o ambiente de negócios brasileiro.

Para os fornecedores que trabalham com o mercado público, essa atuação pode adquirir uma dimensão adicional: além das obrigações normais de qualquer empresa, é necessário estar atento às condições de participação previstas nos editais e à documentação exigida em cada contratação.

Licitação começa muito antes da sessão pública

Para quem acompanha pregões eletrônicos todos os dias, é natural associar a licitação ao momento mais visível do processo: publicação do edital, envio da proposta, disputa de lances, julgamento e habilitação.

Dia-do-Contador-imagem-2-1000px Dia do Contador: quem ajuda empresas a estarem preparadas também faz parte das conquistas

Mas uma empresa não começa a se preparar para uma contratação pública quando o cronômetro da sessão é aberto. Boa parte das condições necessárias para competir foi construída semanas, meses ou até anos antes.

É nesse período anterior que organização documental, regularidade empresarial e acompanhamento econômico-financeiro ganham importância.

Dependendo das exigências estabelecidas no edital e da natureza da contratação, o fornecedor poderá precisar apresentar documentos que demonstrem sua capacidade para assumir as obrigações decorrentes do futuro contrato.

Nesse contexto, alguns pontos merecem acompanhamento contínuo:

  • balanço patrimonial elaborado de acordo com as normas aplicáveis;
  • demonstrações contábeis consistentes com a realidade da empresa;
  • análise dos índices econômico-financeiros aplicáveis ao edital;
  • organização e atualização dos documentos empresariais;
  • acompanhamento da situação econômico-financeira do negócio;
  • apoio na compreensão das exigências contábeis previstas na contratação;
  • informações confiáveis para avaliar a capacidade da empresa antes de assumir novas obrigações.

Essa preparação não significa que o contador seja responsável pela licitação. O processo normalmente envolve empresários, responsáveis pelo setor de licitações, área comercial, jurídico, administração, logística e outros profissionais, conforme a estrutura de cada organização.

A contabilidade integra esse ecossistema justamente porque determinadas informações produzidas e acompanhadas por ela podem influenciar diretamente a capacidade de a empresa demonstrar sua condição econômico-financeira.

Quando a contabilidade também entra na estratégia de quem vende ao governo

A relação fica ainda mais clara quando observamos a habilitação econômico-financeira prevista na Lei nº 14.133/2021.

De acordo com o art. 69, essa etapa busca demonstrar a aptidão econômica do licitante para cumprir as obrigações decorrentes do futuro contrato. Para isso, a lei prevê critérios objetivos e documentação específica, respeitadas as condições estabelecidas no processo licitatório e no edital.

Para o fornecedor, isso mostra por que a análise de uma oportunidade não deve ficar restrita ao preço, ao objeto ou à possibilidade de vencer a disputa. Também é necessário verificar antecipadamente se a empresa atende às condições de habilitação daquela contratada.

A contabilidade pode contribuir exatamente nesse ponto, fornecendo informações técnicas que ajudam a equipe responsável pela licitação a compreender a situação da empresa antes de assumir compromissos.

Na prática, essa integração pode envolver questões como:

  • conferir se as demonstrações contábeis necessárias estão disponíveis;
  • identificar os índices estabelecidos pelo edital;
  • avaliar os dados utilizados nos cálculos econômico-financeiros;
  • verificar se as informações apresentadas correspondem à documentação contábil;
  • antecipar eventuais inconsistências que precisam ser analisadas;
  • apoiar a equipe responsável pela licitação na leitura das exigências de natureza contábil.

Esse cuidado também evita generalizações. Nem todo edital apresentará exatamente as mesmas exigências, assim como não é correto presumir que toda licitação exigirá uma declaração específica do contador.

A análise precisa partir sempre da legislação aplicável e, principalmente, das regras daquela contratação.

O balanço patrimonial não é apenas mais um documento da habilitação

Entre os documentos relacionados à capacidade econômico-financeira, o balanço patrimonial costuma receber atenção especial dos fornecedores.

O art. 69 da Lei nº 14.133/21 prevê, entre a documentação da habilitação, econômico-financeira, o balanço patrimonial, a demonstração de resultado do exercício e demais demonstrações contábeis dos dois últimos exercícios sociais.

Esse é um ponto que merece atenção especial do fornecedor. A ausência, inadequação ou apresentação incompleta dessas demonstrações pode comprometer a habilitação, especialmente quando a empresa só verifica essa exigência depois de já ter participado da disputa.

Para pessoas jurídicas constituídas há menos de dois anos, a própria lei estabelece regra específica, limitando essa documentação ao último exercício social.

O ponto importante para o licitante é entender que esses documentos não devem ser tratados apenas como arquivos a serem procurados quando surge uma oportunidade.

Eles representam informações estruturadas sobre a realidade econômica e patrimonial da empresa. Quando o edital utiliza índices econômico-financeiros para verificar a capacidade do fornecedor, os cálculos partem justamente dos dados registrados nas demonstrações contábeis.

A Lei nº 14.133/21 determina ainda que os coeficientes e índices econômicos previstos no edital sejam justificados no processo licitatório.

Também veda a exigência de índices de rentabilidade ou lucratividade e de valores mínimos de faturamento para essa finalidade, além de proibir índices e valores não usualmente adotados para avaliação da situação econômico-financeira necessária ao cumprimento das obrigações da licitação.

Há ainda uma conexão direta com a atuação profissional do contador. O §1º do art. 69 estabelece que, a critério da Administração, poderá ser exigida declaração assinada por profissional habilitado da área contábil atestando que o licitante atende aos índices econômicos previstos no edital.

A expressão “poderá” é fundamental: não se trata de uma exigência automática para toda licitação, mas de uma possibilidade prevista expressamente na lei. Quando essa declaração é exigida no edital, porém, o fornecedor precisa redobrar a atenção, porque sua ausência ou apresentação inadequada pode comprometer a habilitação e retirar a empresa da disputa.

Contador e equipe de licitações: uma parceria que reduz riscos

Quando a equipe de licitações e a contabilidade trabalham de forma isolada, algumas informações importantes podem ser percebidas apenas quando o prazo para participar da disputa já está correndo.

Uma exigência econômico-financeira identificada tarde, uma divergência documental ou uma interpretação equivocada sobre determinado dado contábil pode exigir uma análise em um momento no qual o fornecedor tem pouca margem para corrigir sua estratégia.

Por outro lado, uma comunicação constante permite que questões técnicas sejam verificadas antes da apresentação dos documentos. Isso não elimina todos os riscos de uma licitação e tampouco transfere ao contador a responsabilidade pelas decisões do setor responsável.

A contribuição está justamente em permitir que cada profissional atue dentro da sua especialidade, levando informações mais confiáveis para quem precisa decidir.

Para o fornecedor, algumas práticas simples ajudam a fortalecer essa integração:

  • compartilhar com antecedência as exigências econômico-financeiras do edital;
  • evitar solicitar documentos contábeis apenas no momento da habilitação;
  • esclarecer dúvidas sobre índices antes do envio da proposta;
  • confirmar quais demonstrações contábeis correspondem ao período exigido;
  • verificar se há exigência específica de declaração de profissional habilitado;
  • manter a documentação empresarial organizada e acompanhada durante todo o ano.

Para microempresas e empresas de pequeno porte, também é importante verificar com o contador quais demonstrações contábeis são exigíveis em cada contratação. Existem hipóteses específicas de dispensa da apresentação do balanço patrimonial, como ocorre, no âmbito federal, nas licitações para fornecimento de bens para pronta entrega ou locação de materiais. Fora dessas situações, porém, ser ME ou EPP não significa dispensa automática da qualificação econômico-financeira.

Essa visão amplia o papel da preparação. Em vez de trabalhar apenas para resolver pendências depois que o edital aparece, a empresa passa a acompanhar sua própria condição para competir.

A singularidade da profissão contábil reforça exatamente a capacidade técnica do contador para elaborar, avaliar e analisar informações econômico-financeiras das organizações, inclusive no contexto das normas de licitações e contratos.

Legenda: Neste conteúdo do canal da Forseti, você confere quando a regularização de documentos pode ser admitida, como funcionam as diligências e quais cuidados o fornecedor deve tomar para não comprometer sua participação.

Mais do que números: informação para tomar decisões melhores

A contribuição da contabilidade para quem vende ao governo também não termina na documentação de habilitação. Informações contábeis ajudam a empresa a compreender sua estrutura financeira, acompanhar compromissos assumidos e avaliar com maior critério as oportunidades que aparecem.

Afinal, conquistar um contrato público só faz sentido quando o fornecedor possui condições de executá-lo de acordo com as obrigações assumidas.

Essa análise é especialmente relevante porque uma licitação não termina com a vitória na disputa. Depois da contratação vêm fornecimento, execução, prazos, custos, obrigações contratuais e recebimento.

Dependendo do objeto, a empresa poderá precisar mobilizar estoque, equipe, capital de giro, transporte ou outras estruturas antes de receber pelo fornecimento. Conhecer a própria realidade econômico-financeira ajuda a evitar decisões baseadas apenas no valor global da oportunidade.

É por isso que uma boa relação entre gestão, contabilidade e equipe de licitações pode ajudar o fornecedor a responder perguntas importantes:

  • A empresa possui estrutura financeira compatível com o contrato?
  • Os custos da operação foram considerados adequadamente?
  • Existem outros compromissos que pressionam sua capacidade financeira?
  • As informações utilizadas para decidir a participação refletem a realidade atual?
  • A documentação necessária estará disponível no período previsto pelo edital?
  • A empresa está assumindo uma oportunidade compatível com sua capacidade de execução?

A decisão final pertence ao fornecedor e deve considerar muitos outros elementos além da contabilidade. Mas informações econômico-financeiras consistentes ampliam a qualidade dessa decisão.

É nesse sentido que o contador deixa de aparecer apenas como o profissional acionado para entregar um documento e passa a integrar uma estrutura empresarial mais preparada para avaliar riscos e oportunidades.

Aos contadores que caminham ao lado dos fornecedores, nosso reconhecimento

No mercado público, uma conquista raramente nasce de um único momento.

Dia-do-Contador-imagem-3-1000px Dia do Contador: quem ajuda empresas a estarem preparadas também faz parte das conquistas

Antes do lance vencedor existem pessoas pesquisando oportunidades, interpretando editais, calculando preços, organizando documentos, avaliando riscos, cuidando da logística e preparando a empresa para cumprir aquilo que pretende contratar.

Em muitos desses bastidores, também existe um contador transformando informações empresariais em registros confiáveis e oferecendo suporte técnico para decisões que exigem atenção.

Neste Dia do Contador, o reconhecimento da Forseti vai para esses profissionais e, em especial, para aqueles que caminham ao lado dos nossos licenciados e fornecedores.

Profissionais que ajudam empresas a manter sua organização, compreender sua realidade econômico-financeira e chegar mais preparadas às oportunidades do mercado público.

Porque, antes de cada proposta enviada e de cada contrato conquistado, existe uma rede de trabalho que também merece fazer parte dessa conquista.

Programa Licenciados Forseti para consultores de licitações

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Ricardo Dantas

Ricardo Dantas é palestrante e especialista em licitações públicas, com mais de 20 anos de experiência orientando empresas a vender para o governo de forma estratégica e segura.

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